quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Avaliação docente

O processo de transformação da realidade educacional passa pela avaliação docente. Aqui vão alguns elementos para auto-reflexão, retirados do relatório:

Estudo sobre a avaliação dos docentes do ensino superior: Desenvolvimento de instrumentos de avaliação de desempenho (para ler o documento completo clique aqui)



Avaliação docente


Para iniciar a discussão dos problemas e das práticas de avaliação no Ensino Superior, Braskamp e Ory (1994) optaram por uma classificação pragmática envolvendo quatro categorias:
* o ensino
* a investigação e a actividade criativa
* a prática e o serviço profissional
* a cidadania e a participação cívica

Relativamente ao ensino, importa que um bom ensino não seja apenas definido em termos de competências genéricas de ensino aplicáveis a qualquer tema ou disciplina. O ensino implica uma demonstração de uma pedagogia da substância (Shulman,1988), isto é, a capacidade não apenas de transmitir conhecimentos, mas também a de transformar e ampliar o conhecimento (Boyer, 1990).
Braskamp e Ory (1994) consideraram na categoria de ensino um conjunto de actividades que classificaram nas seguintes áreas:
- ensino dos alunos em cursos, laboratórios, clínicas, estúdios, workshops, seminários; a gestão dos cursos (planeamento das aprendizagens e de experiências, a classificação e o registo de resultados);
- a supervisão e orientação de alunos (supervisão e orientação dos estudantes em laboratórios e em trabalho de campo; aconselhamento de estudantes sobre as carreiras, cursos e pessoal docente; supervisão dos estudantes no seu estudo individual e em trabalhos de teses e dissertações);
- desenvolvimento de actividades de aprendizagem (desenvolvimento, revisão e reorganização de currículos e dos cursos, dos materiais de ensino, manuais e software; gestão e desenvolvimento dos respectivos cursos, cursos por correspondência, cursos no estrangeiro e programas de computação);
- actividades promotoras do desenvolvimento profissional enquanto professor (avaliação do ensino dos colegas; realização da investigação sobre o ensino; frequência de cursos para o desenvolvimentoprofissional).

Na categoria de investigação e de actividade criativa, os autores, incluíram todas as formas de descoberta e de integração de conhecimentos, análises críticas e trabalhos críticos. Fizeram um inventário das tarefas desta categoria subdividindo-as nas seguintes áreas:

- realização de investigação (publicação de livros, artigos, revisões, traduções, apresentação de comunicações, etc.);
- produção de trabalhos criativos (escrita de novelas, poemas, ensaios, peças de teatro, actuação enquanto actores, cantores, dançarinos, produção de filmes, vídeos, musicais, coreografias, festivais, designs e outras formas de organizar o trabalho criativo);
- edição e gestão de trabalhos criativos (edição de jornais e outras publicações; consultoria em exposições e outras realizações artísticas);
- condução e gestão de centros de investigação (preparação e gestão de projectos, gestão de contratos e de bolsas, elaboração de relatórios, etc.).

Na categoria de prática e serviço profissional incluem os trabalhos de resolução de problemas da sociedade utilizando conhecimentos, perícia e decisões profissionais.
Prática tem aqui o sentido mais amplo do que a aplicação do conhecimento. Trata-se de geração do conhecimento a partir da própria prática, gerado na luta, com a incerteza, a singularidade, o conflito e mesmo a confusão inerentes às situações.
Nesta categoria os autores incluíram:
- a realização de investigação aplicada e avaliação (realização da investigação aplicada dirigida ou contratualizada; desenvolvimento de programas, políticas e avaliação de pessoal para outras instituições e agências);
- a disseminação do conhecimento (consultoria e assistência técnica para organizações públicas e privadas e análise de políticas públicas a nível local, regional, nacional e internacional; sínteses e pontos de situação sobre assuntos específicos; informação a audiências várias através de seminários, conferências, cursos; aparecimento nos media; actuação como “testemunha” perito em órgãos do Estado; serviço como perito na imprensa e nos media; edição de cartas e boletins;
- desenvolvimento de novos produtos, práticas, procedimentos clínicos (projectando e criando inovações, invenções, procedimentos, práticas);
- a cooperação em parcerias com outras entidades (colaboração com escolas, indústria e agências cívicas no desenvolvimento de políticas; desenvolvimento de exposições em outras instituições culturais e educacionais; administração de festivais e programas de Verão; participação em actividades de desenvolvimento económico e comunitário);
- a realização do serviço clínico (diagnóstico e tratamento de clientes e pacientes; realização de conferências; supervisão do pessoal).
Relativamente à categoria de cidadania e participação cívica nela incluem o trabalho feito em prole da própria instituição, o trabalho realizado em associações e organizações profissionais e o trabalho em organizações comunitárias, políticas, cívicas, etc., assim estruturado:
- contribuições no campus (gestão e administração de uma unidade, liderança ou pertença a grupos de trabalho, formação de outros membros do pessoal, representação da instituição, participação no governo do campus);
- contribuições para associações e sociedades científicas e profissionais (desempenhando papéis de liderança nas organizações, participando em júris e em comissões de acreditação, organizando congressos e conferências e participando em grupos de trabalho);
- contribuições para outras comunidades (participando em organizações cívicas, políticas, religiosas ou da comunidade, desempenhando cargos públicos, prestando serviços de assistência aos cidadãos).

No Reino Unido, Elton e Partington (1991) tentaram, relativamente à categoria de ensino, enunciar um conjunto de critérios que deveriam ser considerados num esquema geral para a caracterização do perfil do docente do Ensino Superior. Esses critérios foram sendo trabalhados e transformados e conduziram a uma lista de quinze categorias das quais dez relativas ao ensino na instituição e cinco referentes a critérios externos. Os critérios relativos ao ensino na instituição foram assim agregados:
- preparação para o ensino
- qualidade do acto de ensinar
- volume do ensino
- inovação
- comunicação geral com os alunos fora das aulas
- procedimentos de avaliação
- avaliação do próprio ensino
- gestão do ensino
- melhoria e investigação do próprio ensino
- ensino e envolvimento com o mundo do trabalho
Quanto aos critérios por regulação externa consideraram:
- os convites para ensinar fora da instituição
- pertença a grupos profissionais
- serviços prestados noutras universidades
- organizações sobre o ensino
- bolsas/contratos e contratos para desenvolvimento de trabalhos para outras instituições

A análise de outros desenvolvimentos desta problemática no Reino Unido levou Aylett e Gregory (1996) a considerar que existem cinco componentes essenciais que podem ser reunidas para se constituir um perfil global para caracterizar o ensino. As cinco componentes são:
- componente institucional que descreve os factores externos condicionadores do ensino nessa instituição;
- a abordagem que é feita ao ensino e que inclui todo o processo de preparação e formas de contacto com os alunos;
- ensino propriamente dito sob a forma do desempenho nas aulas;
- processo de regulação e de avaliação dos resultados do ensino;
- reconhecimento externo, quer na própria instituição, quer fora dela.

A avaliação deve servir para focar as discussões e alcançar melhorias. Um bom sistema de avaliação deve basear-se no compromisso de se querer melhorar e não no princípio do controle institucional. O ensino superior só beneficiará se a avaliação se orientar no sentido de se mover para além dos resultados do trabalho dos docentes (por ex.: artigos publicados para avaliar a investigação e resultados dos exames para avaliar o ensino) e se incorporar o pensamento por detrás do trabalho e actividades em si mesmos.

Avaliar os docentes do ensino superior com vista ao seu desenvolvimento profissional é diferente de fazer a sua avaliação para mostrar a eficácia do ensino perante a sociedade.

A avaliação deve ser concebida como uma força positiva em vez de uma intrusão negativa. Pode fazer-se com o objectivo duplo de ajudar o indivíduo e desenvolver a instituição, mas a atitude de comprometimento versus a de controlo deve ser a que fundamenta a acção. A definição da qualidade da contribuição de um docente é influenciada pela missão da instituição e esta ao transformar-se numa organização de aprendizagem deve usar a avaliação dos docentes para fazer ajustamentos na sua missão, nas suas práticas, nas suas políticas.

Envolver os docentes na discussão do que é que deve contar para avaliação constitui uma tarefa fundamental para articular os objectivos individuais e institucionais.

A avaliação do trabalho dos docentes do Ensino Superior deve descrever e julgar o espectro completo do trabalho que é inerente às suas funções e considerar os seguintes processos:
- exame do nível do trabalho, incluindo o pensamento sobre esse trabalho, as actividades, e as contribuições do docente;
- a reflexão sobre a qualidade do trabalho e a discussão de padrões com colegas, chefes, directores;
- a existência de feedback de outros esperando-se o seu uso para melhorar a qualidade do trabalho.

Como princípio geral, o trabalho dos docentes é melhor descrito e julgado se forem recolhidos diferentes tipos de evidência a partir de fontes variadas e métodos múltiplos.

Segundo Braskamp e Ory (1994) são ingredientes de uma avaliação eficaz os seguintes:
- contemplar tanto os objectivos individuais como institucionais;
- reflectir a complexidade do trabalho dos docentes;
- favorecer a identidade e singularidade de cada docente e promover o desenvolvimento da carreira;
- comunicar claramente os objectivos institucionais e as expectativas;
- promover a colegialidade dos docentes.

Lanço o desafio: vamos nos auto-avaliar com este critérios???? e depois é claro aproveitar a reflexão feita para mudas nossas práticas?

Postado por: João José Saraiva da Fonseca

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