sexta-feira, 18 de julho de 2008

Educação a distância uma ponte na educação de jovens e adultos

Artigo da minha participação no I Telecongresso Internacional de Educação de Jovens e Adultos realizado em Brasília 21 a 23 de novembro de 2001 sob o tema: Educação Básica e Educação Continuada: Formando Competências para um Mundo em Mudanças


Resumo:

A atividade educativa no contexto da Sociedade da Informação comporta alterações profundas
nos modos de educar e aprender. A primeira conseqüência a reter é o fim da escola enquanto transmissor privilegiado de ensino e aprendizagem. Pensar a escola na atualidade é antes de mais transformar os seus fundamentos, organização e propósitos. No que aos sistemas de ensino é de prever profundas alterações dirigidas sobretudo para a adoção de formas de educação aberta, flexível e a distância, com uma forte vertente de auto-formação e formação ao longo de toda a vida. A educação a distância surge, neste panorama com particular potencialidade na formação de jovens e adultos, libertando-os dos condicionalismos de tempo e espaço da educação presencial e permitindo assim dar resposta a uma necessidade básica dos nossos tempos: aprender o que se quiser, onde se quiser e quando se quiser.

Artigo

A Declaração Universal dos Direitos Humanos ao consagrar em 1948 o direito à educação reflete
uma corrente de idéias que, do ponto de vista da prática e da política educativa, aponta para a necessidade de garantir o pleno desenvolvimento do indivíduo, através da igualdade de oportunidades no acesso à educação universalizada.

As idéias de incremento do acesso à educação apresentam-se intimamente ligadas ao conceito de
cidadania que introduz os princípios da liberdade e da igualdade perante a lei e universaliza os direitos.

A transitoriedade, novidade e diversidade, características dos nossos dias, implicam a erosão acelerada do conhecimento e das qualificações profissionais, induzindo políticas de revalorização,
atualização e reconversão dos saberes e capacidades ao longo de toda a vida.

O capital intelectual é fator essencial de vantagem competitiva, num mundo global ciberdividido,
em que o desenvolvimento tecnológico é não-linear, o que exige capacidade de negociação
constante e procura, na memória, de experiências vividas.

A ONU através de várias das suas organizações prevê o dramático alastrar do analfabetismo
entre os jovens e adultos, nas próximas décadas.

O Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, na Suíça, em Janeiro deste ano, perspectiva
que o número desses indivíduos aumente dramaticamente, se no campo da educação não forem tomadas medidas urgentes que passam por:
- participação dos diferentes intervenientes no processo educativo;
- prática encorajadora do pensamento crítico e da iniciativa;
- integração de alunos com necessidades educativas especiais e outros alunos em situações especiais (detidos, imigrantes, migrantes, militares, etc.);
- amigabilidade da escola;
- financiamento aos alunos do acesso à educação;
- disponibilização de infra-estruturas escolares;
- formação contínua e permanente de professores;
- aumento da qualidade da educação ministrada.

Assiste-se em simultâneo a uma crescente necessidade de formação ao longo de toda a vida.

O presente texto resume algumas das idéias discutidas na tese de mestrado apresentada e defendida pelo autor. Tem subjacente a intenção de apresentar subsídios para a análise do papel da educação a distância na formação de jovens e adultos, tendo por base a realidade européia.

A evolução social, tecnológica e cultural ocorrida ao longo do século XX e sobretudo após o advento da Sociedade da Informação, conduziu a uma nova concepção de educação, baseada numa nova dimensão do tempo de duração do processo de aquisição do conhecimento e da própria vida útil das habilitações necessárias para a vida e para o trabalho. Um tempo que, até aqui, estava circunscrito a uma conotação estritamente cronológica, alarga-se hoje sob a forma
de um processo contínuo e complementar, abrangendo toda a vida. Neste processo, a auto-aprendizagem baseando-se na motivação individual e na consciência e controle de si próprio, tendo como referência básica a autonomia em termos de acesso, gestão do percurso e do processo de aprendizagem, apresenta-se como um desafio para os sistemas de ensino.

A educação a distância tenta corresponder às necessidades de formação a que os sistemas educativos ditos tradicionais, não têm correspondido (1). A educação a distância teve desde os seus primórdios uma aplicação nos domínios da formação técnica. O desenvolvimento tecnológicos dos canais de mediação possibilitou à educação a distância abraçar o desafio de abranger diferentes áreas e níveis de ensino. A expansão ao ensino superior tem por referencial a concepção de raiz de organizações com a finalidade dominante de prestar serviços de educação a distância (2). A necessidade de posicionamento estratégico face à crescente necessidade de formação e a retração do público-alvo tradicional levou a que instituições de ensino superior ditas tradicionais criassem unidades orgânicas especializadas, fazendo parte de organizações maiores, de ensino presencial, sob diversas designações (departamentos, centros, institutos, etc.) (3). A perspectiva de um mercado de formação de elevado potencial, conduziu a que diversas entidades conjugassem sinergias para a concretização de redes de organizações interessadas em oferecer educação a distância (4).

A discussão mantida em Davos aponta a educação à distância como uma alternativa credível aos
desafios colocados de promoção da igualdade de oportunidades no acesso à educação, num quadro de aposta estratégica na valorização do capital humano.

A educação à distância apresenta vulnerabilidades e potencialidades. As vulnerabilidades estão relacionadas com o estigma face ao método, o processo de mediatização entre o aluno e professor, o elevado investimento inicial, as necessidades de logística, tutoria e avaliação, o convívio com “mutantes” tecnologias, a premência de regulamentação e controle pró-ativo. Às vulnerabilidades contrapõem-se potencialidades, tais como: a economia de recursos, a acessibilidade, a flexibilidade de resposta, a promoção de capacidades de trabalho e de visão multicultural, a contribuição para a qualidade da educação.

Na atualidade o potencial da educação a distância para superar as necessidades de formação é reconhecida pelas organizações internacionais, que propõem o investimento em programas de literacia e de formação ao longo de toda a vida.

O futuro da educação à distância está intimamente ligado a um mercado de formação de valor incalculável, dominado por empresas multinacionais constituídas a partir de parcerias entre diversas entidades detentoras de saberes específicos. A utilização das tecnologias da informação e comunicação possibilitará vencer as distâncias que separam professores e alunos e iniciar o processo de uma cada vez mais rápida, interativa comunicação. Simultaneamente, permitirá desenvolver projetos cada vez mais adaptados às formas individuais de aprendizagem, nos quais se atribui uma progressiva autonomia ao aluno, colocando ao seu dispor um número crescente de
recursos para a aprendizagem, possibilitando a concretização de duas idéias básicas lhe estão subjacentes: possibilitar um acesso igualitário à educação e promover uma aproximação das condições oferecidas em termos de interatividade às disponibilizadas pela educação presencial.

A educação a distância terá de responder com ponderação ajustando-se aos instrumentos de mediação disponíveis, libertando-se o máximo possível dos mecanismos de mercado que possam favorecer a ciber-divisão e a multiculturalidade. Criando pontes que unam todo o globo no prazer de re-aprender na cooperação com o outro.


(1) Entre as exigências que têm vindo a ser colocadas destacam-se:
- a necessidade de adaptação às constantes mutações do mundo, em todos os sectores;
- a crescente solicitação de educação;
- o crescimento das faixas populacionais à margem dos sistemas formais de ensino;
- a necessidade de flexibilizar a rigidez dos sistemas de ensino convencionais;
- vencer as distâncias geográficas, nomeadamente nos países de baixa densidade populacional (casos do Canadá, Estados Unidos e Austrália);
- rentabilizar os recursos, criando sistemas de ensino de baixo custo ao nível das infra-estruturas e da utilização dos recursos humanos;
- amenizar as conseqüências de determinadas situações excepcionais (hospitalização prolongada, prisão, guerra, êxodo, etc.);
- apoiar deficientes com dificuldade de integração no sistema de ensino presencial;
- facilitar a aprendizagem de línguas estrangeiras a indivíduos não nativos;
- tentar minorar as desigualdades de acesso ao ensino, nomeadamente o ensino superior, possibilitando uma maior flexibilidade para os interessados.
- responder à necessidade crescente de formação permanente ajudando a desenvolver novas habilidades para uma mesma profissão cujas atividades variam e se transformam rapidamente;
- ajudar a desenvolver competências que permitam mudanças de uma profissão para outras emergentes, no curso da vida.

(2) A nível europeu é o modelo mais característico entre as instituições que promovem a educação à distância. Apresentam-se como referências os casos da Open University britânica, da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED) de Espanha e da Universidade Aberta de Portugal.

(3) É o modelo organizacional mais adotado nos Estados Unidos, sendo majoritário em grande
escala. Na Grã-Bretanha, cerca de 70% das universidades ditas tradicionais, oferecem em aditamento ao ensino presencial, cursos à distância em várias áreas.

(4) Constituem exemplo os consórcios de Universidades, consórcios entre Universidades e
empresas; associações de âmbito internacional e programas transnacionais, etc..


O artigo está disponível na página na Internet do Telecongresso Internacional de Educação de Jovens e Adultos e pode ser lido clicando aqui.

Postado por João José Saraiva da Fonseca em 18 de Julho de 2008

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