domingo, 30 de novembro de 2008

Influencia maléfica...

A propósito das palavras de Valdemar W.Setzer, sobre a influência maléfica das novas tecnologias sobre as crianças e jovens, junto este de texto de Laurindo Lalo Leal Filho, que relata a situação aberrante que se passa na programação das televisões em algumas situações do país, em virtude do "Poder da TV".


O poder da TV

As empresas de radiodifusão conseguiram acabar com um dos quatro fusos horários existentes no Brasil, só para não ter que alterar muito suas grades de programação. Mexeu-se com a vida diária de milhões de pessoas que passaram a acordar de madrugada e sair de casa no escuro, apenas para não resvalar nos interesses das emissoras.

Laurindo Lalo Leal Filho

Em debates, platéias de classe média quando confrontadas com dados a respeito do poder real da televisão no país, mostram-se incrédulas. Para elas o bicho não é tão feio assim. São formadas por pessoas que lêem jornais, vão ao cinema e ainda se dão ao luxo de pagar para ver os canais restritos a assinantes. Muitas vezes sintonizam apenas nos filmes ou nos programas infantis. Por isso, para elas, existem problemas mais graves do que a televisão para serem discutidos.

Pode até ser, mas para quem tem na TV a única janela para o mundo, as coisas são diferentes. No Brasil estão nessa condição aproximadamente 150 milhões de pessoas que, sem outras alternativas culturais, vivem em torno da televisão. E não é uma TV qualquer. Trata-se de uma das melhores do mundo em termos técnicos, o que potencializa o poder de sedução, inerente ao veículo. Mas reduz a possibilidade do surgimento de espíritos mais críticos em relação ao conteúdo transmitido, geralmente próximo à indigência.

Claro que há incômodos e insatisfações. Mas as manifestações a respeito são tímidas e limitadas. Primeiro por muitos acreditarem que a TV chega de graça às suas casas, sem lembrar que o financiamento das emissoras tem origem no sabonete ou na cerveja comprados pelo telespectador no supermercado. E como em cavalo (aparentemente) dado não se olham os dentes, fica tudo por isso mesmo. Os que ultrapassam essa limitação e sentem ânimo para exigir mais respeito de quem opera uma concessão pública se vêem diante do vazio. A quem reclamar?

O Brasil é talvez a única grande democracia do mundo onde não existe um órgão regulador para a radiodifusão. Aqui vale tudo. Nem mesmo a lei obsoleta de 1962 é respeitada. Ela diz, por exemplo, que a propaganda deve ser limitada a 25% do total da programação. E todos sabemos que há canais vendendo os mais variados produtos todos os dias, o dia todo. Não dá para reclamar nem para o bispo, ele também é um concessionário de canal de TV.

Diante da impunidade, as emissoras sentem-se à vontade para exercer seu poder sobre o Estado e a sociedade. Exemplo recente foi a batalha em torno da Portaria do Ministério da Justiça que estabeleceu a classificação indicativa por horários dos programas de TV, como determina a Constituição Federal. Um embate de quase três anos, com artistas globais sendo usados para gritar contra a "censura" do Estado.

Finalmente as normas entraram em vigor em 2007, mas as empresas não se deram por vencidas. Numa clara demonstração de força conseguiram acabar com um dos quatro fusos horários existentes no Brasil, só para não ter que alterar muito as suas grades de programação. Mexeu-se com a vida diária de milhões de pessoas que passaram a acordar de madrugada e sair de casa para o trabalho ou para a escola no escuro, apenas para não resvalar nos interesses das emissoras.

Mas não ficaram por ai. Agora, com o horário de verão adotado em parte do país, negam-se a adequar a programação nas regiões onde não vigora a hora oficial de Brasília. O resultado é que no Acre, por exemplo, a combinação do fuso com o horário de verão, faz com que programas exibidos às 21 horas em outras partes do país, passem lá às 18h. São 26 milhões de crianças brasileiras expostas a programas incompatíveis com suas idades, colocadas fora da proteção legal, garantida pela Constituição. Diante desse fato o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), vinculado ao governo federal, divulgou nota exigindo respeito absoluto aos diferentes fusos
horários.

As empresas, sem nenhum pudor, rebatem alegando que fuso horário é diferente de horário de verão e que, portanto, elas estão cumprindo o que determina a Portaria do Ministério da Justiça. Só há uma palavra para definir esse tipo de argumento: desfaçatez. Horário indicativo é horário indicativo em qualquer parte do país. Se o programa não é recomendado para ser exibido antes das 21 horas em São Paulo, também não pode ser veiculado antes das 21 em Rio Branco.

Impondo vontades desse jeito, a TV se sobrepõe aos poderes da República e faz lembrar um velho filósofo, liberal empedernido que, diante de tanto poder, viu-se obrigado ao final da vida a rever suas posições, passando a exigir algum controle social sobre a televisão. Dizia Karl Popper que a “democracia consiste em submeter o poder político a um controle. É essa a sua característica essencial. Numa democracia não deveria existir nenhum poder político incontrolado. Ora, a televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal; pode mesmo dizer-se que é potencialmente o mais
importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus".

E ele não chegou a conhecer a TV brasileira, com poder até para mudar as horas do país.


Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

Fonte: Agência Carta Maior - 24 de novembro de 2008

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Na tentativa de aprofundar melhor as palavras de Laurindo Lalo Leal Filho, apresentamos uma entrevista, que o estudioso concedeu ao programa Sintonia da TV Câmara, no qual fala sobre os diferentes modelos de financiamento do veículo e destaca a importância dos canais públicos de TV.



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Para aprofundar a reflexão sobre a temática, proponho a leitura da entrevista à RIO MÍDIA de Roger Silverstone, autor do livro "Por que estudar a mídia?", o professor tem absoluta certeza de que os meios de comunicação influenciam o cotidiano das pessoas, embora não se possa, na prática, medir esses efeitos.


Consumidores, produtores e usuários. Nossa relação com a mídia é tamanha que não conseguimos mais viver sem ela. A mídia está em todos os lugares, em todos os momentos - seja auxiliando, informando, entretendo ou educando. Há quem diga que não sabemos dominá-la. Que, no jogo da vida, nós, seres humanos, muitas vezes é quem somos dominados, subjugados, persuadidos e influenciados por ela. Estudá-la é, portanto, essencial e urgente.

A afirmação acima é de Roger Silverstone, conceituado professor de mídia e de comunicações da London School of Economics and Political Science, do Reino Unido. Autor do livro "Por que estudar a mídia?", o professor tem absoluta certeza de que os meios de comunicação influenciam o cotidiano das pessoas, embora não se possa, na prática, medir esses efeitos.

Em entrevista exclusiva, Silverstone destaca que a mídia faz parte, hoje, de nossa organização de espaço e tempo. Ela nos oferece pontos de referência, pontos de parada, pontos para o olhar de relance e para a contemplação, pontos de engajamento e oportunidades de desengajamento. Os infinitos fluxos da representação da mídia são interrompidos por nossa participação neles. "A maioria das pessoas acredita ser tão equilibrada em suas relações com o mundo da mídia como é em relação às suas próprias vidas. Talvez seja melhor crer nisto, mas, na verdade, estamos apenas surfando - e não nadando - no mar da mídia. Falta muito para dominá-la", afirma.


RIO MÍDIA - O título do seu último livro "Por que estudar a mídia?" é bastante sugestivo. Mas, afinal, por que devemos nos dedicar a este assunto?

Roger Silverstone - Porque precisamos compreender o processo de mediação, compreender como surgem os significados, onde e com quais conseqüências. Porque precisamos ser capazes de identificar os momentos em que o processo parece falhar, onde ele é distorcido pela tecnologia ou de propósito. Porque necessitamos compreender sua política, sua vulnerabilidade ao exercício do poder; sua dependência do trabalho de instituições e indivíduos; e seu próprio poder de persuadir. A mídia é e sempre será importante. Ainda mais agora que ela está estabelecida como uma estrutura primária de nossas vidas para dar sentido ao mundo e nosso lugar nele. Poder nada inocente. Algumas vezes, benevolente, outras vezes, não. Em ambos os casos - e precisamos distinguir quais e em quais circunstâncias - é necessário compreender como ele é exercido, por quem, com quais conseqüências, além de como este poder pode ser transformado ou contido. Devemos estudar a mídia porque queremos respostas a muitas questões, respostas que não podem ser conclusivas e que, de fato, não devem ser. Precisamos examinar a mídia como um processo, como uma coisa em curso e uma coisa feita, em todos os níveis, onde quer que as pessoas se congreguem no espaço real ou virtual, onde se comunicam, onde procuram persuadir, informar, entreter, educar, onde procuram, de múltiplas maneiras e com graus de sucesso variáveis, se conectar umas com as outras. Entender a mídia como processo também implica um reconhecimento de que ele é fundamentalmente político ou talvez, mais estritamente, politicamente econômico.


RIO MÍDIA - Você acredita que as pessoas sabem utilizar o poder da mídia com sabedoria?

Roger Silverstone - Hoje, todos crescem cercados pela mídia. Ela é parte da nossa vida social, embora possa não ser o caso das pessoas da minha idade - avôs e avós, que vivemos em outra era. Daí a nossa surpresa ao ver filhos e netos tão interligados às representações da mídia e à sofisticação em lidar com uma mídia que parece extraordinariamente complexa e muitas vezes sem sentido algum. Há uma habilidade e uma sinergia imensa entre os usuários dos meios de comunicação de massa. Usam a mídia de forma criativa a ponto de aumentar ou diminuir a capacidade que têm de gerenciar suas próprias vidas cotidianas. Mas esta habilidade e sinergia são superficiais. De fato, são bastante superficiais. Elas requerem cumplicidade e uma aceitação fria da falsa representação e da eqüidade da mídia. A maioria das pessoas acredita ser tão equilibrada em suas relações com o mundo da mídia como é em relação às suas próprias vidas. Talvez seja melhor crer nisto, mas é possível afirmar que estamos apenas surfando e não nadando no mar da mídia. Falta muito para dominá-la.


RIO MÍDIA - Você acredita que a mídia pode afetar a rotina dos jovens? Como educar as crianças a respeito da mídia?

Roger Silverstone - Evidentemente a mídia causa efeitos, embora não necessariamente diretos e significantemente mensuráveis. A história da pesquisa da comunicação de massa foi dominada por tentativas de medir tais efeitos, mas as metodologias empregadas raramente conseguiram dar conta da sutileza, da profundidade e dos efeitos a médio e longo prazos da mídia e da sua capacidade de construir cultura. Esta análise depende do reconhecimento de que a mídia tem um status estrutural e até mesmo um status ontológico no nosso cotidiano. Portanto, sim, a mídia afeta nossa rotina. Influência que de certa forma pode ser amenizada. Mas devemos considerar a mídia como um efeito: efeito de ação em todos os diferentes níveis da sociedade. Uma coisa é certa: a mídia exerce tamanha influência no nosso dia-a-dia que necessitamos de instrumentos de análise poderosos e sofisticados para avaliá-la. Acredito que devemos desenvolver estes instrumentos assim como novos princípios para a prática da educação para a mídia. Na minha avaliação, os jovens devem ser mais instruídos para lidar com o processo de representação da mídia. Capacitação que deveria fazer parte da educação básica, hoje e sempre.


RIO MÍDIA - A qualidade é um conceito difícil de definir até mesmo por especialistas. Como podemos definir o que seja uma mídia de qualidade?

Roger Silverstone - A qualidade é um tema difícil. Juízos sobre qualidade são sempre subjetivos. De certa forma, eu acho que não vale a pena tentar defini-lo como uma propriedade da mídia. Conseqüentemente, podemos pensar qualidade não como algo intrínseco ao programa, seriado ou portal da internet, mas como algo intrínseco à natureza do relacionamento que as audiências e usuários podem construir com estes programas ou seriados, assim como à natureza dos relacionamentos que produtores têm com seus sujeitos, com suas imagens ou com seu público. Podemos pensar em questões como honestidade, responsabilidade, confiança... A qualidade se torna, portanto, uma categoria ética e não estética, embora estes conceitos nunca possam ser totalmente separados.


RIO MÍDIA - A qualidade é um conceito difícil de definir até mesmo por especialistas. Mídia de Todos, Mídia para Todos. Este foi o tema norteador da 4ª Cúpula Mundial de Mídia. O que o senhor acha deste tema?

Roger Silverstone - Talvez "Mídia de mais, Mídia para mais" fosse mais realista. Mas o princípio é bom. A expectativa de que todos devemos ter uma voz na mídia é necessária, embora com certeza não devemos subestimar a luta que isto nos implicaria e as obrigações que a nós se imporiam por ganharmos esta voz. O pluralismo dentro dos espaços midiáticos é essencial, mas pluralidade na produção não garante a pluralidade na recepção. E a expansão na mídia pode produzir tanto uma exaustão de imagens e textos quanto, por outro, uma fragmentação do social potencialmente perigosa. Com certeza, existe uma grande luta a ser feita contra o crescente controle que poucas corporações dominantes da mídia têm sobre as mídias locais, regionais e nacionais, incluindo a comunicação na internet. Como um chamado político, este seria um grande tema para ser discutido por toda a sociedade.


Entrevista concedida a Marcus Tavares


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Voltando às idéias de Laurindo Lalo Leal Filho, proponho a leitura do artigo "A esperteza publicitária" publicado em 13 de maio na Agência Carta Maior


As tentativas da Anvisa de impedir que bebidas de teor alcoólico mais baixo, como cervejas e vinhos, continuassem a ser veiculadas a qualquer hora do dia nunca vingaram. E uma das razões está no fato das cervejarias patrocinarem as principais transmissões de eventos esportivos no país.
O estádio do Pacaembu foi palco da segunda partida das finais do campeonato paulista deste ano. Com o empate em um a um, o Corinthians
tornou-se campeão, já que vencera o primeiro jogo na Vila Belmiro. O
"próprio da municipalidade paulistana", como o estádio era chamado pelo locutores de outras épocas, viveu um dia de festa (apesar das trapalhadas da Federação na hora de premiar os vencedores, causando até um princípio de incêndio).

O Pacaembu, velho de quase 70 anos, a serem completados no ano que vem, deu conta do recado. As reclamações da imprensa se restringiram ao gramado, realmente muito mal cuidado pela atual administração. Sobre o pior, que estava à vista de todos, não se ouviu nenhum pio, por motivos óbvios.

Placas de publicidade, colocadas estrategicamente ao redor do campo para obter os melhores e mais constantes ângulos das câmeras de TV, anunciavam bebidas alcoólicas cuja propaganda pelo rádio e pela televisão é proibida no horário em que o jogo se realizava. Sem nenhum pudor a TV anunciava, ainda que indiretamente, marcas de cachaça e conhaque que, pela lei, só poderiam ser mostradas depois das 21 horas.

As tentativas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de impedir que bebidas de teor alcoólico mais baixo, como as cervejas e os vinhos, continuassem a ser veiculadas a qualquer hora do dia nunca vingaram. E uma das razões, sem dúvida, está no fato das cervejarias patrocinarem as principais transmissões de eventos esportivos no país.

Ainda assim, a lei determina que bebidas com mais de 13 graus na escala Guy Loussac (caso da cachaça e do conhaque) só podem ser propagandeadas pela TV e pelo rádio entre as nove da noite e as seis da manhã. Mas na final do Paulistão, lá estavam sendo exibidas sem nenhuma restrição em plena tarde de domingo.

Emissoras, agências de publicidade, anunciantes e concessionários dos espaços publicitários no Pacaembu (e de outros estádios onde a prática se repete) encontraram um belo atalho para burlar a lei. Além de resistirem bravamente a possíveis restrições à propagada diurna de cervejas, conseguiram veicular também nesses horários bebidas de alto teor alcoólico, mostrando toda a sua esperteza. A cada tomada de câmera da pinga que "é uma boa idéia" ou do conhaque "macio", risos de superioridade devem aparecer nas faces dos que operam à margem da lei.

Afinal eles são mesmo muito espertos.

A essa gente não interessa, por exemplo, os resultados de duas pesquisas recentes realizadas aqui e na Europa. A brasileira, apoiada pela Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) e divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz, mostra a diferença de atitude em relação à bebida dos adolescentes que ficam mais ou menos tempo expostos à propaganda desses produtos. Os primeiros consomem álcool em quantidades maiores do que os outros.

Os pesquisadores estudaram o comportamento de estudantes de 14 a 17 anos, da rede pública de ensino de São Bernardo do Campo, diante da exposição de 32 propagandas de cerveja. Entre os adolescentes que já haviam sido expostos previamente a mais mensagens publicitárias, a pesquisa constatou que o consumo de bebidas alcoólicas é de cinco a dez vezes maior. "As propagandas que mais chamavam a atenção dos estudantes estavam associadas a sexualidade, humor e futebol", disse o principal autor do trabalho, Alan Vendrame, pesquisador da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Na Holanda, cientistas da Universidade de Radboud conduziram um experimento com 80 estudantes universitários do sexo masculino, de idades entre 18 e 29 anos, divididos em quatro grupos. Um deles assistiu ao filme American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível, com muitas referências ao consumo de bebidas alcoólicas durante a trama e com propagandas desses produtos nos intervalos. Outro grupo assistiu ao mesmo filme sem nenhuma propaganda. Um terceiro grupo assistiu ao filme 40 Dias e 40 Noites, que tem menos referências a bebidas alcoólicas mas que foi interrompido algumas vezes por comerciais de bebidas. E o quarto assistiu ao mesmo filme, sem intervalos.

Durante a exibição os participantes tinham acesso a uma geladeira com cerveja, pequenas garrafas de vinho e refrigerantes. Aqueles que assistiram ao American Pie serviram-se de 1,5 copos a mais de cerveja ou vinho do que os que assistiram ao 40 Dias e 40 Noites. Os resultados sugerem que o efeito do conteúdo de álcool na TV não só é capaz de aumentar a compra de bebidas alcoólicas, mas pode também estimular o seu consumo imediato.

"Nosso estudo mostra claramente que exibir bebidas alcoólicas em filmes e propagandas não apenas influi nas atitudes das pessoas e nas regras para bebida na sociedade, mas pode funcionar como uma sugestão que afeta o desejo e o subsequente consumo de bebida", afirmou o pesquisador Rutger Engels que liderou o estudo. A pesquisa foi publicada na edição de maio-junho de 2009 da revista científica britânica Alcohol and Alcoholism.

As conseqüências desse consumo são mais do que conhecidas: doenças,
atitudes anti-sociais, mortes no trânsito, entre outras. Mas a resposta dos publicitários e dos seus associados é sempre a mesma: a auto regulamentação resolve tudo. Afirmação igualmente desmentida por outra pesquisa conduzida por Alan Vendrame. Ele investigou a violação das regras impostas pelo código de ética do Conar (Conselho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária) e constatou que 12 das 16 regras para a publicidade de bebidas alcoólicas são violadas. Entre elas, a que impede a propaganda de utilizar imagens, linguagens ou idéias sugerindo ser o consumo do produto um sinal de maturidade ou que contribua para o êxito profissional, social ou sexual.

A determinação de que os personagens da propaganda não devem ter, nem aparentar ter menos de 25 anos, também não é cumprida. Assim como a que impede o apelo sexual. O pesquisador entrevistou 282 estudantes de 14 a 17 anos de escolas públicas também de São Bernardo dos Campo mas não os mesmos que participaram da outra pesquisa acima mencionada.

São constatações que mostram claramente a necessidade da presença do
Estado nesse tipo de relação. A sua ausência não só permite o
desrespeito às regras de auto regulamentação como dá aos agentes da
propaganda a sensação de total impunidade, levando alguns deles a buscar caminhos tortuosos para burlar o pouco de lei existente. Como no caso das placas publicitárias colocadas nos campos de futebol para serem exibidas pela TV.


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A propósito da discussão mantida anteriormente, proponho a leitura do artigo publicado no jornal português Correio da Manhã, assinado por Francisco Moita Flores em 22 de fevereiro de 2009.

"A barbárie


Clique na imagem e leia o artigo sobre Jade Goody na wikipedia

Jade Goody tornou-se célebre, em Inglaterra, por ter participado num ‘Big Brother’. Famosa por ter relações sexuais dentro da casa, em directo para milhões. A popularidade conquistada, à custa da exposição, conduziu-a por um caminho debruado por revistas cor-de-rosa, acontecimentos sociais, pelo mundo dos negócios.

Porém, a vida foi madrasta para Jade. Um cancro colocou-a às portas da morte ainda sem ter chegado aos trinta anos. Está às portas da morte. Sabendo da sofreguidão das televisões por emoções fortes, procurando resguardar o futuro de dois filhotes, decidiu vender direitos de imagem a eito. Vai casar com Jack Tweed, um bandido que foi libertado condicionalmente, para o evento. Dão-lhe pouco mais de uma semana de vida. Mas sobre a morte ninguém sabe. Apenas sabemos que existe um dia e uma hora em que ela acontece. Mas dizem os médicos que está para breve. Então, Jade vendeu os seus direitos de imagem para que a sua morte ocorra em directo. Alguns canais ofereceram milhões. Tudo deve acontecer após o casamento para Jade receber os milhões que desta venda tem direito.

Não tenho palavras para censurar ou para aplaudir esta inditosa jovem. Penso, até, que foi proibida a tomada de imagens do momento fatal. As decisões são dela. Porém, é uma notícia que vem ganhando forma. A fome de emoção, a sede profunda por acontecimentos mais radicais que chamem audiências vai chegando aos limites que a própria memória dos homens incluiu no território dos interditos. De facto, sendo o único ser vivo que desde cedo (entre os 7 e os 9 anos) sabe que vai morrer, em todos nós habita o sonho de atingirmos a imortalidade. Esta utopia impossível, este desejo de viver para além do tempo consumado é o pilar fundamental que dá sentido à nossa existência, sustenta a moral, a ética, a metafísica e todas as substâncias invisíveis que estruturam a nossa cultura e civilização. Não morrer. Iludir esse momento. Ignorá-lo. Escamoteá-lo do olhar público, faz com que, a par do nascimento, seja um dos dois mais íntimos da vida de cada um.

Impossibilitados de conhecer a morte, conhecendo apenas a morte do Outro, a construção de todas as representações sociais e simbólicas que afastam os medos do fim é decisiva para a nossa identidade individual e colectiva. Na verdade, não passamos disto. De um ser que nasceu para morrer.

Jade percebeu que o medo desse interdito vale milhões. Vendeu a sua própria morte. O canal que a iria comprar esperava vender não sei quantos milhões de publicidade à custa deste momento tão omnipresente da vida de todos nós. Quando acontecer, que esta pobre miúda descanse em paz."

Como complemento à informação anterior, apresento outro texto que ajuda a compreender o contexto. A idéia aqui não é falar sobre a notícia, mas sim refletir sobre o que lhe está subjacente.

Gordon Brown apoia decisão de Jade Goody

Reino Unido. Ex-concorrente de 'Big Brother' britânico em nova polémica

Assessor de imagem diz que não se verá Jade Goody morta

"É muito triste e trágico que alguém tão jovem tenha esta doença mortal, sendo muito triste também que não tenha tido êxito no tratamento", reagiu ontem o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, acrescentando compreender perfeitamente a razão por que a ex-concorrente do Big Brother naquele país, Jade Goody, com cancro em fase terminal, tenha vendido os seus últimos momentos de vida por 1,7 milhões de euros.

"Creio que cada um tem a sua própria maneira de enfrentar estes problemas e a decisão de ajudar a sua família é algo que temos de aplaudir", disse Gordon Brown, acrescentando: "Desejo o melhor para ela e para a sua família, certo de que todo o país está preocupado com a sua saúde."

A história recente de Jade Goody, 27 anos, dois filhos (quatro e cinco anos), originária de uma família problemática, está a chocar a opinião pública britânica e a excitar os meios de comunicação social ávidos deste género de dramas.

Com pouco tempo de vida, a ex- -Big Brother decidiu protagonizar mais uma polémica a juntar a várias anteriores, nomeadamente quando se tornou na primeira participante a manter relações sexuais em frente das câmaras ou a empregar linguagem racista com uma outra concorrente. Agora, vendeu as seis semanas de vida que lhe restam à cadeia de televisão por assinatura Living TV, bem como as fotografias do seu casamento, com um jovem de 21 anos, domingo, à revista OK!, por valor igual ao que a mesma revista pagou pelo de Victoria Beckham. Tudo 1,7 milhões de euros. No entanto, algo já não está em cima da mesa: as imagens de Jade Goody morta.

"Francamente, é uma ideia repugnante", disse Max Clifford, assessor de imagem da jovem britânica, e, curiosamente, responsável pela imagem de Alfie Patten, o famoso pai britânico de 13 anos. - P.B.

Fonte: Diário de Noticias de 20/02/2009


Postado por João José Saraiva da Fonseca em 30 de novembro de 2008 e alterado em 15 de dezembro de 2008 - 22 de fevereiro de 2009 e 14 de maio de 2009

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