sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O fim do mestrado...

O reitor da UFBA (UniversidadeFederal da Bahia), lança outra vertente para a discussão das tendências da educação brasileira.

O fim do mestrado...

Quais os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que finsserviu? Servirá no futuro?


...TAL COMO introduzido no Brasil, durante a ditadura militar, parece próximo.Na atualidade, praticamente todos os países com maior desenvolvimento econômico e social têm mestrado como formação profissional.Entre nós, o grau universitário chamado mestrado foi instituído em 1965 pelo famosoParecer Sucupira, que definiu diretrizes para a pós-graduação brasileira. Nessecontexto, o título foi criado como habilitação à docência em nível superior.Quarenta anos depois, tal definição só existe no Brasil e, em menor escala, em algunspaíses latino-americanos.

Quais são os antecedentes dessa invenção da burocraciaacadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?O termo "master", "meister" (daí o tratamento plebeu -"mister"- na língua inglesa), "maître", mestre, em português, tem raízes profissionais. Na Europa medieval, designava o artesão experiente que dominava seu ofício e, autorizado pelascorporações, estava apto a formar aprendizes.A universidade formava então apenas "doctors", senhores da "doctrina". Só na eramoderna começou a titular profissionais. A Reforma Humboldt, instituidora dauniversidade de pesquisa em 1810, manteve o doutorado como láurea acadêmica maior. Masacolheu o mestrado como grau acadêmico intermediário, em suplemento à láurea menor, o bacharelado. A partir do século 20, em toda a América do Norte e nos países da "commonwealth", otítulo de "master" tanto se refere à formação pré-doutoral quanto implica designação direta da área profissional.O administrador recebe o título de MBA ["master of business administration"]; o pedagogo, M.Ed. ["master of education"]; o sanitarista, M.P.H. ["master of publichealth"]; o psicólogo, M.Psychol. ["master in psychology"]; e assim por diante. Exceções são algumas profissões que seguem o padrão da medicina, em que graduação[M.D. -"medical doctor"] é sempre doutorado. E, em muitas universidades, o curso dedireito concede grau de J.D. ["juris doctor"]. Na tradição mediterrânea, raiz da universidade brasileira (através de Coimbra e depois pela influência da Sorbonne e das "écoles polytechniques"), o título mestre nunca foi utilizado. Preferia-se licenciado (modelo francês e espanhol) ou bacharel (modelo lusitano).

Com o Processo de Bolonha, a partir de 1999, unifica-se o mestrado como diploma do segundo ciclo na maioria das universidades européias. Em Portugal, Holanda e Suíça, por exemplo, médico é agora mestre em medicina.Na França, Alemanha e Itália, cursos em complemento às láureas profissionais sãoigualmente referidos como mestrado. Neste contexto de crescente internacionalização da universidade, vale a penacontinuarmos sucupiranos? Faz sentido manter no Brasil uma exótica licenciatura paraensino superior chamada mestrado? Não seria interessante "masterizar" a formaçãoprofissional, com soluções criativas para impasses e limites dos modelosinternacionais?Respostas a essas questões podem ser dadas pelo Reuni, pelo menos no âmbito da redefederal de ensino superior. No plano nacional, a Andifes avança na construção dochamado "Reuni da pós", que deve contemplar ampliação maciça de vagas e propostas dereestruturação dos ciclos pós-profissionais. No plano local, várias universidadesdesenvolvem modelos de pós-graduação compatíveis internacionalmente.

Assim é que vimos implantando na UFBA o modelo conhecido como Universidade Nova, que,além dos bacharelados interdisciplinares, prevê expansão dos mestrados profissionais(devidamente redesenhados) e equivalência entre essa modalidade e cursos deespecialização. No marco legal superado da pós-graduação brasileira, mestres formadosno exterior em graduação profissional têm sido oficialmente credenciados porcolegiados e câmaras como docentes de nível superior. Haverá certamente reação às mudanças entre os que se beneficiaram do equívoco regulatório. Mas, para recriar a pós-graduação brasileira, contamos enfim com os órgãos normativose de coordenação da educação superior. O Conselho Nacional de Educação poderia rever o Parecer Sucupira, e todo o marco legal derivado, à luz das mudanças em curso empraticamente todos os países do mundo desenvolvido. E a Capes, formada porrepresentantes das comunidades acadêmicas, poderia elaborar diretrizes específicaspara os mestrados profissionais, fomentando propostas capazes de tornar a universidade brasileira mais integrada às redes internacionais de produção e circulação de ciência, arte e cultura.

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 56, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva e reitor da UFBA (UniversidadeFederal da Bahia).

Fonte: Folha de São Paulo - 23 de novembro de 2008

Nota de esclarecimento:

O Parecer Sucupira é o Parecer 977 da Câmara de Ensino Superior(C.E.Su) do então Conselho Federal de Educação, de 03/12/1965, e é conhecido pelo nome de seu relator, prof. Newton Sucupira. O documento organizou a pós-graduação brasileira. nos moldes vigentes até hoje. Adotou uma matriz flexível, similar à existente nos Estados Unidos, que divide a pós-graduação em duas categorias – stricto sensu, voltada para carreira acadêmica, e lato sensu, para quem trabalha em empresas e outras atividades – e estabelece as categorias de mestrado e de doutorado, sem que a primeira seja obrigatoriamente um requisito para a segunda.


Postado por João José Saraiva da Fonseca em 28 de novembro de 2008

Nenhum comentário: