domingo, 7 de setembro de 2008

Democracia e mediocridade

A propósito das eleições americanas Vasco Pulido Valente (um distinto jornalista português), publicou no Jornal Público do dia 6 de setembro o artigo de opinião abaixo. Independentemente de se estar de acordo com o artigo em relação aos candidatos (não tenho pretensão em entrar na análise política), proponho que façamos uma relação entre o que Vasco Pulido Valente diz sobre o que se passa nos Estados Unidos e o que está acontecendo no mundo social e político à nossa volta. Talvez possamos encontrar algumas semelhanças preocupantes.



Democracia e medicridade

o ataque a Obama, a Convenção do Partido Republicano, que não podia recorrer ao racismo puro e duro (embora indirectamente o fizesse), preferiu concentrar o seu ódio ao homem no que nele, a seguir à cor, acha mais detestável: a educação. Isto pode parecer estranho num partido dedicado à independência, liberdade e criatividade do indivíduo de que falou sempre com grande entusiasmo. Mas não é. O que os republicanos detestam em Obama é uma educação aristocrática e privilegiada (Direito Constitucional em Harvard e, a seguir, em Nova Iorque, na Universidade de Columbia) e o respeito que ela ainda inspira. Em compensação, a candidata à vice--presidência, Sarah Palin, é muito estimada por ter tirado um vago curso de Jornalismo e um mestrado sem valor numa universidade desconhecida.


Como diria Luís Filipe Menezes, se por lá andasse, Obama é um "elitista" do Leste; Sarah uma perfeita representante das "bases". Obama não merece confiança, porque pensa bem e fala bem, e porque, percebendo a complexidade do mundo, não o vê com a intolerância e o primitivismo do americano "normal". A uma pessoa assim, quase um "europeu", com certeza que falta a convicção e a coragem para impor a supremacia da América e para "sentir" a difícil vida dos "pequenos". Sarah Palin, com duas noções desconexas na cabeça e a brutalidade dos simples, pertence, real e simbolicamente, à mítica "pequena cidade" do interior que o cinismo urbano não conseguiu contaminar; à "pequena cidade" ordeira e beata, em que vizinhos se ajudam e o "espírito comunitário" não enfraqueceu. 

Os comentadores de serviço explicam que o voto depende de uma identificação entre o candidato e o eleitor. O candidato precisa por isso de um "tecido conjuntivo", que o ligue ao eleitor. Infelizmente, o "tecido conjuntivo" é, por um lado, um tecido de ignorância e de incultura, e, por outro, de "verdades bíblicas", de nacionalismo acrítico e de ressentimento por uma pobreza inescapável. Quando foi eleita governadora, Palin vendeu o avião do estado do Alasca, despediu o cozinheiro da residência oficial e despediu também o motorista, para guiar ela, humildemente no seu carro, para o trabalho. A essa não falta o "tecido conjuntivo" que falta a Obama. Só que o populismo, com democracia ou sem ela, e na América como em Portugal, acaba inevitavelmente por desprezar a inteligência e por exaltar e preferir a mediocridade. O que talvez promova a igualdade, mas não promete nada de bom. 

Postado por João José Saraiva da Fonseca em 07 de setembro de 2008

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