domingo, 7 de setembro de 2008

Implícito e explícito

O Halterofilista Janos Baranyai sofreu uma grave lesão durante os jogos olímpicos. A propósito da fotografia de Jung Yeon-Je (AFP) Eduardo Cintra Torres publicou um artigo no Jornal de Público de 6 de setembro de 2008, a partir do qual proponho que façamos uma reflexão entre o explícito e o implícito na mensagem midiática. Apresentamos aqui um estrato do artigo.

Olímpica deposição

[A imagem que mais me inquietou foi] foi a do Halterofilista Janos Baranyai em sofrimento depois de torcer um braço quando tentava levantar 148 quilos, quase o dobro do seu peso (imagem 1). 

  Imagem 1

Janos está no chão, assistido por três homens e uma mulher. Há imenso movimento, aflição na cara dos dois homens à esquerda, socorro do que traz a maca, solicitude na mulher que se inclina sobre o atleta. À esquerda, pelo menos quatro assistentes fazem uma barreira que se supõe impedir a visão da cena pelo público, mas um dos assistentes não resiste e olha para trás. Ao fundo, gente desfocada. O estádio estaria cheio de gente interessada na cena, mas a foto cria uma intimidade de família em torno de Janos, dada as linhas verticais e oblíquas que o cobrem. 0 nosso olhar é chamado diretamente para a cabeça de janos, que é o "centro de equilíbrio" da composição. A câmara do fotógrafo - ponto de vista dele e nosso - estava à altura do olhar de Janos. 0 cotovelo deslocado do atleta - explicação da cena - está exatamente a meio do plano horizontal dá foto e a um terço da altura. A brilhante foto (Jung Yeon-Je, AFP) remete os olhos ocidentais para as representações da deposição de Cristo da cruz e, da pietá, quando Jesus, morto, é baixado da cruz e quando Maria chora com o corpo no regaço. A representação pictórica da deposição de que a imagem Janos mais se aproxima será a de  Caravaggio nos Museus do Vaticano (imagem 2): tem a mesma agitação, a mesma solicitude coletiva perante o corpo deitado formada por ações e gestos individuais dos que acodem. 0 ponto de vista é idêntico: em ambos os casos "estamos" no chão. 

  Imagem 2

0 colchão do estádio, com a sua esquina ferindo­ nos o olhar, ecoa o ângulo da pedra tumular no quadro de Caravaggio. 0 atleta está deitado na mesma posição de Cristo, a cabeça à esquerda, pés à direita. A maioria das representações da deposição e da pietã em que Cristo aparece deitado, desde o século lX, optou péla mesma posição, que permite aos ocidentais "ler" o corpo de Cristo a partir do elemento que primeiramente nos põe em contacto uns com os outros, a cabeça. Em 62 pinturas e esculturas, encontrei mais de 2/3 com esta leitura da cabeça para os pés, apesar de a direção visual ser apenas um dos elementos da composição: a adequação. dos elementos ao espaço, o seu peso visual, a tensão e o movimento podem também determiná-la.  Caravaggio criou uma composição em que todos os vivos se debruçam sobre o morto com uma dinâmica em crescendo depois da cabeça de Cristo (primeiro elemento à esquerda) e até ao último dedo da mão de Maria de Cleofas no topo superior direito. Em todas as pinturas da deposição em que há gente à esquerda e à direita do cadáver os seus corpos estão virados para o interior do quadro, para Cristo. São idealizações; em Pequim, a realidade não o permitiu, porque os assistentes à esquerda estão virados para "fora" da imagem, para um lugar que é "anterior" à leitura da fotografia, que no ocidente fazemos da esquerda para a direita. E se a leitura seguir um modelo oriental da direita para esquerda? Nesse caso, a foto bate "certo". Invertendo a foto - uma manipulação como exercício de análise -, a leitura da narrativa, da foto fica mais "correta" ao olhos ocidentais (imagem 3). 



Os assistentes; ao ficarem à direita, tornam-se o elemento final da leitura e criam uma barreira mais "lógica", "ocidentalmente" falando, a quem na bancada assistisse ao sofrimento de Janos. A manipulação da composição fica mais “perfeita” que o original. O corpo fica na posição inversa, mas a cabeça e o cotovelo continuam ao centro e dá-se o acaso de a massa corpórea (num halterofilista) contar mais do que a espiritualidade associada à cabeça (de Cristo).

Postado por João José Saraiva da Fonseca em 7 de setembro de 2008

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