Comunidades falsificadas

JESÚS MARTÍN-BARBERO (*) deu uma entrevista ao Jornal Folha de São Paulo no dia 23 de agosto de 2009, na qual faz algumas afirmações que transcrevo abaixo:

Quais as incertezas (os medos) do mundo moderno?

A sociedade [atual] vive uma espécie de volta ao medo dos pré-modernos, que era o medo da natureza, da insegurança, de uma tormenta, um terremoto.

Hoje natureza voltou a ser um problema hoje. Agora sob a forma da ecologia: o que vai acontecer com o planeta, o nível do mar vai subir?

Depois vem [o medo da] violência urbana, a insegurança urbana.

Como terceira insegurança aparece a vida laboral. Do mundo do trabalho, que foi a grande instituição moderna que deu segurança às pessoas, que se configurou como um mundo de produção do sentido da vida, vamos para um mundo em que o sistema necessita cada vez menos de mão de obra.


O que significa social aí?

Há diferenças entre o que foi a comunidade pré-moderna e o que foi o conceito de sociedade moderna.

A comunidade pré-moderna era orgânica, havia muitas ligações entre os seus membros, religiosas, laborais.

Falar de comunidade para falar da nação moderna é complicado, porque se romperam todos os laços da comunidade pré-moderna.

Quando começamos a falar de comunidades de leitores, de espectadores de novela, estamos falando de algo que é certo. Uma comunidade formada por gente que gosta do mesmo em um mesmo momento. É uma comunidade invisível, mas é real, tão real que é sondável, podemos pesquisá-la e ver como é heterogênea.

O sentido do que entendemos por sociedade mudou. O que temos chamado de sociedade está mudando. Estamos numa situação em que o velho morreu e o novo não tem figura ainda, que é a ideia de crise de [Antonio] Gramsci. Veja os vizinhos, que eram uma forma de sobrevivência da velha comunidade na sociedade moderna. Hoje, nos apartamentos, ninguém sabe nada do outro. Outra chave: o parentesco. A família extensa sumiu. Hoje, uma família é um casal.

Há hoje no conceito de comunidade existe a tentação de que já não necessitamos ser representados, a democracia é de todos, somos todos iguais. Essa é um pouco a utopia da internet. Isso é mentira. Nunca fomos nem somos nem seremos iguais. Seguimos necessitando de mediações de representação das diferentes dimensões da vida.

De que maneira essas questões devem transformar os meios de comunicação?

Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade. Em muito poucos anos a televisão não terá nada a ver com o que temos hoje. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana.

Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade. .. Essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio, a rádio imitadora da imprensa escrita.

Antigamente, todos líamos, escutávamos e víamos o mesmo. Isso para mim era muito importante. De certa forma, obrigava que os ricos se informassem do que gostavam os pobres -sempre defendi isso como um aspecto de formação de nação. Quando lançaram os primeiros aparelhos de gravação de vídeo, disseram-me que isso era uma libertação: as pessoas poderiam selecionar conteúdos. Hoje temos acesso a tantas coisas e tantas línguas que já não sabemos o que queremos. Hoje há tanta informação que é muito difícil saber o que é importante. Mas o problema para mim não é o que vão fazer os meios, mas o que fará o sistema educacional para formar pessoas com capacidade de serem interlocutoras desse entorno; não de um jornal, uma rádio, uma TV, mas desse entorno de informação em que tudo está mesclado. Há muitas coisas a repensar radicalmente.


Jesús Martín Barbero, en su libro La educación desde la comunicación, analiza los impactos de las nuevas tecnologías y sus usos sociales, centrándose en la problemática del libro y de las transformaciones contemporáneas en los modos de leer y escribir.

Consulta online el libro completo


(*) Jesús Martín Barbero ha sido presidente de la ALAIC (Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación), miembro del Comité consultivo de la FELAFACS (Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social).




Postado em 24 de agosto de 2009 por João José Saraiva da Fonseca

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